Plantio comercial de espécies nativas:

Um dos sonhos dos ecologistas é substituir o plantio comercial de espécies exóticas como Eucalipto e Pinus por espécies nativas, que tem madeira comercialmente aproveitável e não agridem o ecossistema como as primeiras.

Vários órgãos governamentais e institutos sérios têm estudos a respeito disto, mas ainda não vemos um plantio em grande escala comercialmente viável.

Por outro lado, vemos difundido na Internet viveiros que investem em venda de sementes ou mudas de espécies com este perfil, muitos com propaganda tipo “Faça uma poupança para seus netos” ou “Plantando a riqueza do futuro”, etc.

Vem então a pergunta:

Por que o plantio de Eucalipto hoje é tecnicamente fácil e rentável, e o plantio de nativas tão difícil?

Algumas questões tem de ser levantadas:

 1-      Tempo de crescimento da árvore.

Em geral espécies nativas demoram muito mais para se tornarem prontas para o corte, diferente das exóticas como o Eucalipto, que pode ser cortado em 5 a 7 anos. Por outro lado, as árvores de crescimento rápido tem madeiras mais leves, próprias para carvão e celulose. As madeiras pesadas, usadas para moveis e construção normalmente provem de árvores de crescimento lento.

 2-      Problemas da monocultura.

O plantio de qualquer espécie como monocultura, seja por exemplo, Eucalipto, Café ou Soja, implica fatalmente em uma maior vulnerabilidade a pragas e doenças. Existem dois exemplos típicos, ver links no final.

Na década de 80 o Projeto Jarí foi uma tentativa de plantio comercial de uma espécie exótica na Amazônia, a Gmelina (Gmelina arborea), para implantação de fábrica de celulose. Todos os estudos indicavam boa adaptabilidade, e rendimento excepcional. O plantio foi feito, mas tão logo as mudas foram crescendo, a quantidade de pragas e doenças inviabilizou o projeto como foi concebido. Hoje a fábrica de celulose do Jarí funciona no mesmo local, porém utiliza Eucalipto.

Varias tentativas foram feitas para o plantio comercial da Candeia (Eremanthus erythropappus) no norte de MG. Os links no final mostram alguns estudos. Entretanto, a arvore, que era dominante na região, formando populações quase homogêneas, quando foi plantada como monocultura, sem sub-bosque ou espécies rasteiras em redor, se tornou extremamente vulnerável a pragas. Não tenho informação se este problema já foi contornado, mas sei que os projetos sofreram um impacto considerável sobre a concepção inicial.

Outro caso típico é de madeiras de lei, como Jequitibá (Cariniana legalis) e Jacarandá da Bahia (Dalbergia nigra). O aproveitamento ideal da madeira ocorre em arvores antigas de tronco ereto, sem galhos e bifurcações. Acontece que o tronco só fica desta forma quando a arvore nasce no meio da mata, lutando entre as outras pelo espaço ao sol. O Jacarandá plantado isolado, por exemplo, apresenta tronco bifurcado, com inclinação, e quase sempre não completa seu ciclo de crescimento, morrendo quando ainda está de altura mediana.

Desta forma podemos concluir que o plantio de nativas fora de seu habitat e em forma de monocultura tem sérias dificuldades no trato tecnológico.

Tudo isto sem mencionar o impacto ecológico da monocultura na fauna local e mesmo a interação com a diversidade da flora. É dispensável dizer que qualquer monocultura é ruim nestes aspectos.

 3-      Tecnologia para plantio comercial.

Todo plantio comercial carrega uma carga tecnológica adquirida ao longo dos anos, superando dificuldades e aprimorando técnicas. Para isto utilizam-se profissionais especializados, laboratórios dedicados, e atualização constante. É rotineiro o uso de clones geneticamente aprimorados e resistentes a pragas.

Desta forma quem planta Eucalipto está indiretamente usufruindo de toda esta base.

Para um plantio comercial de espécies nativas deve-se levar em consideração que isto não existe, aumentando os riscos da empreitada.

 4-      Restrições legais.

O plantio de espécies nativas não sofre nenhuma restrição legal, mas seu corte tem todas as restrições possíveis.

Desta forma, quando se vai plantar nativas prevendo o corte para uso comercial no futuro, deve fazer o plantio obedecendo a todas as normas legais, com projeto, licenças, etc. Caso contrário não será possível fazer o corte ou comercializar a madeira.

Neste ponto existe um agravante: conforme os itens anteriores, para uma boa adaptação das espécies desejadas, a melhor forma é consorciá-las com outras espécies nativas, formando um ambiente similar à mata original. Entretanto, desta forma certamente ficará muito mais difícil legalizar o projeto, pois dentro da visão burocrática este plantio misto não se caracteriza mais como um plantio comercial, e sim como um reflorestamento com nativas.

 5-      Comercialização

Diferentemente do que apregoam as propagandas na Internet, ter árvores nativas em ponto de corte nem sempre é garantia de retorno financeiro. É preciso levar em consideração como vender o produto, onde está o comprador, qual a facilidade e custo do transporte, da mão de obra especializada no corte correto, etc. Antes de se fazer o plantio é bom imaginar como seria a venda do produto, se as árvores estivessem prontas para o corte hoje.

 6-      Conclusão

Certamente o plantio de nativas é algo ecologicamente correto, e principalmente, uma atividade muito prazerosa. Entretanto, plantá-las imaginando ter proveito econômico com sua madeira em futuro distante pode ser uma ilusão, a não ser que isto seja encarado como uma empreitada comercial, com planejamento de ações e riscos.

  7-      Links a respeito

 Sobre o plantio de Mogno, Teça e Guanandi, consorciado com nativas,

Reflorestar. Disponível em: <http://www.reflorestar.com.br/guanandi.htm

Globo rural. <http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC708052-2584,00.html>

Sementes caiçara, em http://www.sementescaicara.com.br/index.htm

Sobre o Projeto Jarí com uso da Gmelina

(links saíram do ar)

Sobre o manejo sustentável da Candeia em MG

http://www.nucleoestudo.ufla.br/nemaf/candeia/manual_simplificado.pdf

http://www.anba.com.br/noticia_desenvolvimento.kmf?cod=7871218&indice=0

Sobre o Paricá -  Schizolobium amazonicum.

www.amatabrasil.com.br/download-arquivo?id=1028