Casos de árvores

Nestes anos de convivência com as árvores, a gente vai colecionando fatos curiosos ou engraçados relacionados com elas. Alguns de fato aconteceram, outros foram contados por terceiros, outros deduzidos pela observação. Aqui vão listados alguns. Provavelmente uma parte deles vai interessar mais a quem está envolvido no tema. Quando possível deixo ao longo do texto um link para possibilitar ver a foto da árvore citada.

1-      Planta aqui, nasce ali.

Plantar uma árvore não é fácil, e traz embutido muitas decepções e frustrações. Quem não conhece muito acha que é só colocar a muda na terra e voltar depois de anos para colher os frutos ou admirar uma grande e imponente árvore. Não sabe que a seleção natural na mata é rigorosa, e os inimigos das arvores são muitos. Assim, simplesmente jogar uma semente ou plantar uma muda por si só não garante nada.

Porém o que tenho observado é que mesmo sem sucesso aparente, o ato de plantar em si contribui para o meio ambiente, mesmo indiretamente. Mesmo que a muda não vingue, a pessoa foi envolvida, está motivada para outro posicionamento em relação ao assunto. Assim o trabalho nunca é perdido.

O interessante é o comentário de uma pessoa da roça de que nem sempre a muda ou semente nasce exatamente onde foi plantada, ou seja, se você se interessou pela terra e fez sua contribuição, a terra vai agradecer, mas não necessariamente no mesmo lugar.

Quando comecei a gostar do assunto, queria plantar muito. Levei uma pequena muda de Jequitibá para a fazenda do meu sogro, para plantar na descida do córrego onde ele contava que existiam muitos Jequitibás no passado e hoje não se viam mais. Plantei a muda próximo a um barranco ao lado do riacho, onde achei mais apropriado, memorizei o local e ali voltei depois de quase um ano. Exatamente no lugar existia uma nova trilha de vacas, o chão estava pisado e nem sinal de minha muda. Fiquei bastante chateado, pois estas primeiras experiências marcam muito, e fui voltando devagar. Mais ou menos a uns 100 metros dali encontrei um pequeno pé de Jequitibá bem viçoso, que eu tinha certeza de não ter visto da outra vez, e que até hoje lá se encontra, crescendo.

Conclusão: às vezes a gente planta uma muda aqui e ela realmente nasce em outro lugar...

 2-      O Vinhático quebra machado.

Também na fazenda do meu sogro. O Seu Catone sempre foi um criador de gado que valorizava as pastagens e detestava as árvores. Ele desmatou toda a região da fazenda, e conta com orgulho sobre as enormes arvores que derrubou e queimou para “limpar” a terra. Além disto, tem uma personalidade inquieta, de atitudes inesperadas e intempestivas.

Na frente da fazenda tem um grande e frondoso Vinhático que admiro muito e do qual colho sementes. Ele conta que, há bastante tempo, resolveu um dia, sem motivo, mandar cortar este Vinhático. Chamou um lenhador para derrubar a árvore. A minha sogra, D. Olminda, reclamava de sua atitude, e queria que deixasse a arvore tão bonita em pé.

O lenhador começou o trabalho, e já havia cortado uns vinte por cento do diâmetro do tronco, quando o cabo do machado quebrou. Meu sogro deu outra tarefa para ele, depois ele consertaria o machado e acabaria de cortar a árvore.

A oportunidade passou, minha sogra continuou reclamando, e a árvore está lá até hoje, ainda com a cicatriz do corte, totalmente recuperada e ainda bela.

3-      O Pau ferro e o raio.

Outra da fazenda do meu sogro. No meio do pasto existe um grande Pau ferro já bastante velho e solitário. A parte de cima da árvore tem os galhos secos. O motivo foi um grande raio que caiu nele há mais de 20 anos e matou umas 30 vacas que estavam nas proximidades. As vacas são mais sensíveis em ocasião de queda de raios por terem uma distancia maior entre as patas, que gera a chamada “tensão de passo”, resultante da dissipação da corrente elétrica ao longo da terra. E o fato da arvore ter sido escolhida certamente é devido a ser muito alta e estar isolada, sem outras nas proximidades.

Porém comenta-se que este tipo de arvore é mais vulnerável aos raios devido às propriedades “metálicas” indicadas no nome.

4-      A cidade de Joanésia ou a vila da Cutieira.

Havia uma vila próxima de Ipatinga, MG que era chamada de Cutieira, devido a uma grande árvore com este nome popular que havia na entrada. Com o passar do tempo a vila conseguiu se emancipar e era preciso escolher um nome para a nova cidade. O povo não queria perder a referência à árvore, porém o nome Cutieira poderia trazer dissabores aos habitantes, ou motivo de brincadeiras e comparações com o roedor do mesmo nome.

A solução encontrada foi procurar o nome cientifico da árvore, que é “Joanesia princeps”.

Hoje é a cidade de nome Joanésia.

 5-      O Jequitibá e o gravetinho.

Próximo a Ipatinga existe um grande Jequitibá que chama a atenção, é visitado e fotografado. Existem em varias cidades Jequitibás semelhantes, remanescentes da mata original, sempre com altura variando em torno de 40 metros (este tem 42) e muita especulação sobre qual sua idade (a estimativa mais verossímil estaria em torno de 200 anos).

Existem outras arvores muito altas na região, mas estão em matas preservadas, e fica difícil o acesso ou mesmo fotografar a mesma “de corpo inteiro”. Este do qual falo está em área descampada, e em estado muito bom, com o tronco perfeito.

Quando recebi a visita em minha casa de um fazendeiro de Palmópolis, Seu Antônio, amigo de meu sogro e como ele grande destruidor de florestas há mais de 50 anos atrás, levei-o para ver a árvore. No caminho ele foi contando das árvores enormes que havia em Palmópolis, que certamente seriam muito maiores do que esta.

Quando viu o Jequitibá de 42 metros, comentou:

“Realmente, é uma arvore muito grande e bonita, mas na minha fazenda chamamos isto de gravetinho.”

6-      O óleo da Copaíba.

Encontramos por aqui Copaíbas, algumas bem velhas. Trata-se de uma árvore que existe em quase todo o Brasil e das mais comentadas pelas suas propriedades medicinais. O óleo que exuda de seu tronco quando ferido é base para diversos remédios, com efeito cicatrizante e muitas outras propriedades curativas.

Mas todo mundo sabe que só é possível extrair o óleo se forem tomados alguns cuidados: a pessoa deve se aproximar da árvore de cabeça baixa, ferir o tronco sem levantar as vistas, e colher o óleo. Se olhar para cima, para a copa da árvore, o óleo não sai.

7-      A Sete cascas e os fazendeiros.

Na região de Palmópolis existia mata fechada (Região de Mata Atlântica) que foi derrubada para criação de gado. Criou-se um sentimento contrário as árvores, que seriam invasoras do pasto, a tal ponto que nem ao menos deixam algumas para dar sombra ao gado, na maioria das vezes. É um fenômeno nacional, de onde derivam algumas expressoes como "mata", "limpar o terreno", e outras que consideram, até hoje o terreno isento da mata nativa como um terreno com benefícios.

Existe uma exceção, uma árvore da qual os fazendeiros gostam: a Sete cascas, chamada na região de “Bucho de carneiro”, que eles aceitam plantar no meio do pasto. O motivo é que as vacas gostam de comer seu fruto, assim ficou difícil considera-la “inimiga do gado”.

8-      O acidente no buraco.

Na região de Ipatinga existem grandes plantações de eucalipto, para fabricação de celulose. A legislação exige que seja preservado um percentual de mata nativa entre as plantações. Estas matas, beneficiando-se da mesma estrutura de combate a incêndio e a formigas proporcionadas ao eucalipto, ficam em geral bem exuberantes. É comum eu entrar nas estradas vicinais procurando estes pedaços de mata para observar as espécies e colher sementes. Acontece que a empresa não gosta da invasão de pescadores e caçadores, e mantém as estradas fechadas na maior parte do tempo. Quando é ocasião de corte do eucalipto, algumas estradas são abertas, e eu fico de olho aguardando a oportunidade. Às vezes os pescadores chegam a cortar a cerca que bloqueia a entrada da estrada para entrar com o carro.

Há uns dois anos eu estava vigiando sementes de Jequitibá, que estavam quase no ponto, entrando por uma destas estradas, abertas provisoriamente naquela época. Eu já tinha estado lá uma semana antes, e estava tranqüilo quanto ao caminho. Quando eu estava entrando com o carro na estrada, como sempre devagar e olhando para os lados procurando alguma árvore interessante, subitamente caí em uma valeta de uns dois metros de largura por dois de profundidade que a empresa tinha feito para bloquear a entrada. Foi o maior susto.

Felizmente os danos materiais foram mínimos, pois a terra estava fofa no fundo, e foi fácil entrar com um reboque e suspender o carro. Aproveitei enquanto esperava o reboque e fotografei o acidente.

9-      A terra da Brauna preta.

A parte mais interessante do estudo das árvores é a fase da descoberta, quando encontramos espécies que nem suspeitávamos existirem na região, ou então ficamos durante um tempo procurando uma espécie da qual ouvimos falar mas ainda não conhecemos.

Quando comecei a descobrir as árvores da região, eu tinha uma lista das espécies mais comentadas e que eu queria ver de qualquer jeito, e uma delas era a Brauna preta, que eu conhecia apenas pelos livros e comentários sobre a excelência da madeira.

Em um dos passeios pelo mato, encontrei uma pequena árvore com flores, que era diferente das outras. Escaneei um ramo florido, procurei nos livros e não consegui identificar. Enquanto esperava aparecerem os frutos, para ter mais uma pista, enviei a figura para alguns amigos que gostam do tema perguntando se conheciam esta árvore. Para minha surpresa, uma pessoa dos Estados Unidos consultou outro botânico da Europa e enviou a resposta: Melanoxylon brauna, a Brauna preta! Precisou tanta volta para identificar uma espécie brasileira e regional.

Quando deu frutos aí não havia mais duvidas. Colhi sementes para fazer mudas. Elas germinaram bem, porém quando atingiam uns 15 cm todas morriam sem motivo. Levou mais um ano para que alguém me desse a dica, também pela internet.

A Brauna depende para o crescimento de um “rizobio”, um organismo que vive na terra em volta das raízes, e acontece alguns metros em volta da árvore. Assim as mudas plantadas em terra que nunca teve uma brauna ficam fracas, e a maioria morre ainda jovem. Solução: colher terra embaixo da árvore para fazer as mudas. E lá fui eu colher, alem das sementes, terra também.

Parece que a dica estava correta, pois a partir daí as mudas passaram a se desenvolver melhor.

10-  As filhas da Canelinha.

Continuando o assunto do item anterior, existe muita controvérsia a respeito do fato de determinadas árvores favorecerem ou inibirem o crescimento de outras, muitas vezes da mesma espécie, de forma a não haver concorrência próxima.

Existem espécies que são encontradas sempre em grupos, indicando que existe facilidade de germinação das sementes caídas nas proximidades. Outras espécies climaxes são em geral encontradas isoladas de outras da mesma espécie, em geral num raio de alguns quilômetros, na mata original. Isto significa que de alguma forma existe uma inibição na germinação ou desenvolvimento.

O que pretendo contar aqui é sobre uma grande Canelinha (creio ser uma Ocotea spixiana)que existia no terreno onde planto minhas árvores, aqui em Ipatinga, MG. Uma arvore de porte razoável, mais de 20 m de altura, apresentava boa floração e frutificação. Apesar de procurar, eu encontrava poucas sementes, provavelmente pelo fato de serem muito procuradas pelos pássaros. E também via poucas mudas nas proximidades, em geral mudas com desenvolvimento abaixo do normal.

Em Novembro de 2003 houve uma queimada na região que atingiu esta canelinha. Como havia muita vegetação seca ao redor de seu tronco, o mesmo ficou muito queimado, e ela morreu. Alguns meses depois de morta, eu providenciei que ela fosse derrubada, pois não me agrada ver arvores mortas em pé.

O que me impressionou foi que, a partir deste momento, comecei a ver uma quantidade impressionante de mudas (suas filhas) se desenvolvendo como nunca ocorreu antes. Hoje, final de 2005, existem filhas dela com quase 10 m de altura, e uma vitalidade muito maior que qualquer outra muda plantada. E não estão apenas na região que poderia ser influenciada pela sombra da arvore mãe, algumas estão bem distantes.

Como explicar esta fúria de crescimento, para repor o espaço deixado pela mãe, da mesma espécie?

11 - Os macaquinhos raspando sementes.

Outra fase interessante é o estudo da dormência das sementes. Algumas sementes nascem sem tratamento, outras requerem uma quebra de dormência, que pode ser por escarificação, lixando a parte dura externa para facilitar a penetração da água, por fervura em água quente, ou por banho de acido. A opção é plantar sem tratamento e ter muuita paciência, pois na natureza a semente leva meses ou até anos para chegar ao ponto de germinar.

Uma vez enviei sementes para um amigo e indiquei a necessidade de escarificação para acelerar a germinação. Provavelmente por ser uma pessoa adepta aos métodos mais naturais possível, ele me disse que ia plantar sem nenhum tratamento, pois não acreditava que na mata houvessem macaquinhos que se dedicassem a ficar raspando ou fervendo as sementes...

Dentro deste assunto, algumas sementes germinam melhor depois de ingeridas e eliminadas por pássaros ou animais, pois os ácidos da digestão fazem uma espécie de banho químico acelerando o processo de germinação. Já ouvi falar de pessoa que faz as galinhas comerem este tipo de semente, e depois as recolhe para plantar.

12-  O ipê púrpura.

Quando estou viajando, tenho um olho na estrada e outro nas árvores ao redor. É comum frear inesperadamente, ou parar e retornar para conferir uma que me pareceu diferente pela floração, ou pelo fruto. Se for o caso, desço, fotografo ou colho sementes, pois ando sempre com todo o material necessário: Maquina fotográfica, binóculo, faca, vara retrátil de pesca com uma faquinha na ponta, saquinhos plásticos e um estilingue com pedrinhas (para coletar amostras que estão muito altas, com um pouco de paciência e pontaria). A família no inicio estranhava e reclamava, mas agora já se acostumou.

Uma vez estava viajando no Vale do Jequitinhonha, entre as cidades de Itaobim e Jequitinhonha, provavelmente a estrada com o asfalto mais esburacado do Brasil, quando vi uma arvore baixa com floração diferente. Voltei o carro e encontrei uma espécie que me pareceu ser uma Tabebuia (Ipê) porém com a flor muito diferente, de um roxo avermelhado e muito vivo. Tirei fotos, colhi amostras, e marquei o lugar, Alguns meses depois coincidiu voltar e encontrei umas poucas sementes, que confirmaram ser mesmo uma Tabebuia. Plantei e consegui algumas mudas, que estão se desenvolvendo.

Tenho na minha página uma lista de desconhecidas, onde coloco fotos e descrição de árvores que não consegui identificar. Para minha satisfação, muitas delas ficam pouco tempo nesta seção pois tem sempre algum amigo ou visitante que me ajuda com a identificação pronta ou com dicas que me levam a ela. Eu a coloquei nesta seção, onde se encontra até hoje.

Consultando o Lorenzi, um dos “papas” sobre árvores brasileiras, ele informou tratar-se de uma espécie não identificada, que o Burle Marx havia usado em seus projetos paisagísticos, mas que não havia encontrado o nome cientifico. Após algum tempo e pesquisas, o mesmo encontrou literatura a respeito, é a Tabebuia gemmiflora, que aparece no volume 3 do seu livro "Árvores Brasileiras".

Tenho colhido sementes sempre que posso e enviado para amigos que querem plantá-la.

    13-  A família das Lepreguntaceas

A medida que a gente vai estudando árvores, vai se familiarizando com os nomes científicos, trocando informações com pessoas que os utilizam preferencialmente aos nomes populares por serem mais precisos, vamos ficando talvez um pouco pedantes, falando uma língua que nem todos entendem.

É comum, ao nos encontrarmos com amigos ou parentes em uma fazenda ou região de mata, cedermos a tentação de ficar identificando as árvores ao redor, atitude que às vezes faz sucesso.

È bom nestes casos ter alguns cuidados, os quais fui aprendendo com o tempo. O primeiro deles é ficar sempre procurando a próxima arvore a ser identificada enquanto se discorre sobre a atual. Isto é importante porque ficamos com a iniciativa da escolha. Uma pausa é sempre perigosa, pois o interlocutor pode perguntar: “E esta aqui, como se chama?” e apontar exatamente para aquela que não sabemos! Ou então podemos estabelecer previamente algumas regras, tipo “Eu identifico apenas as que eu escolher” o que não afinal não pega muito bem.

A segunda estratégia que aprendi com um velho identificador é sobre a família das Lepreguntáceas. Você sempre pode fazer uma cara de entendido e responder: “Esta aí certamente pertence à família das Lepreguntáceas. Provavelmente trata-se de um ‘Lepregunto queseriço” Esta frase em tom bastante professoral pode convencer na maioria das vezes.

Outro lado interessante da questão são alguns nomes científicos que foram obtidos de forma no mínimo curiosa. O Pau terra, árvore comum no cerrado, tem nome cientifico de “Qualea grandiflora” sendo que “Qualea” no caso é derivado de “qual é” ou “qualé”. Dando asas a imaginação, podemos supor um botânico, em geral estrangeiro, perguntando ao caboclo os nomes populares de cada árvore. Mostrou o Pau terra que estava entre outras, e o caboclo perguntou: “Qual é? Aquela?” E êle logo foi anotando “Qualé” como nome popular. No final, os nomes científicos referenciam uma pessoa, um lugar, uma característica da planta ou mesmo um nome popular da mesma. Assim “Qualea grandiflora” pode ser traduzido como “uma Qualé de flores grandes”.